| Frente & Verso | ||||
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historinha de amor As moças nascidas em Cumari, pequena cidade no sudeste goiano, se chamam “cumarinas”. Já os rapazes ganham o título de “cumarinos”. Alguém já viu gentílicos tão singelos? A paróquia de Cumari estava apinhada de gente para o casório de uma ilustre local no entardecer do último sábado. Os dois hotéis locais – um com 3 e outro com 2 quartos – estavam lotados. A diária, com direito a um banho (só um mesmo) e café da manhã (café com leite e pão com manteiga) saía por oito reais. Um dos hotéis abrigou a equipe de fotografia e filmagem do evento, profissionais importados da metrópole mais próxima, Uberlândia, em Minas Gerais. A dona da pousada que recebeu a família do noivo nunca viu tantos carros parados em sua porta. “Daqui a pouco meus vizinhos vão começar a chegar aqui pensando que é meu velório!”, exclamava. Os amigos do noivo não se conformavam com o casório. Não pela perda de um dos membros do clube dos solteiros, mas pela derrota no bolão – a maioria saiu no prejuízo, achando que o noivo desistiria na última hora. Quem não apareceu, na verdade, foi um dos padrinhos (não por acaso, um dos derrotados no bolão). “O que fazer agora?”, perguntavam-se os outros padrinhos na porta da igreja. O noivo decidiu nomear padrinho um amigo que estava ali perto, para alívio da madrinha abandonada. Problema resolvido? Quase. A namorada do recém-eleito padrinho não se conformava em ver seu amado entrando na igreja de braços dados com outra mulher e saiu-se com a sugestão de entrar junto. Mas onde é que já se viu um trio de padrinhos? Em Cumari, não se aceita esse tipo de coisa não. Entraram os casais de padrinho, mas o altar da pequena igreja (daquelas localizadas na praça central da cidade) não comportava tanta gente. Aos padrinhos, coube sentar nos bancos de madeira da parte da frente – e, adivinhe, lá estava sentada a namorada ciumenta, a postos para evitar qualquer assanhamento. A cerimônia, simples e bonita, correu sem maiores delongas. Nunca se viu noiva tão relaxada e calma por aquelas bandas – tão sossegada que até esqueceu partes do juramento. Para bom entendedor (e para noivo apaixonado), meio juramento basta. Mas as palavras mal decoradas eram o que menos importava. O amor deles já havia passado por coisa bem pior. Quer ver só? Anos atrás, o noivo da nossa história namorava uma menina um tantinho ciumenta, que, ao viajar, pedia para as amigas tomarem conta do seu amorzinho para evitar que alguma desavergonhada desse em cima dele. O leitor mais esperto já deve ter adivinhado: sim, uma das amigas eleitas para tomar conta do então namorado assanhado é a noiva da nossa história. Depois de anos de namoro, o atual noivo terminou com a namorada de anos para ficar com a doce guardiã. A amizade das duas, que faziam faculdade na mesma turma, foi para o beleléu. Na formatura, em que a nossa noiva foi acompanhada do ex-namorado da outra, registrou-se um barraco memorável. Mas a vida seguiu e o casamento foi marcado. A igreja se enfeitou, as daminhas fizeram cachinhos no cabelo e o órgão da igreja se esforçou para emitir os mais românticos acordes. Cerimônia terminada, os pais da noiva armaram a recepção na sua fazenda, a alguns quilômetros dali. Os carros deixaram um rastro de poeira pela estrada de terra batida. O barracão da fazenda, que costuma receber festas de roça em outras épocas do ano, estava cheio de enfeites. Flores, luminárias de bambu e até mudas de jabuticabas decoravam o recinto. Quando os noivos chegaram, convocaram os padrinhos para as fotos – e lá foi a namorada ciumenta junto ao neopadrinho. Ela queria aparecer nas fotos também, mas a quebra de protocolo não foi permitida. O jantar logo foi servido – comida caseira, bem temperada e cheirosa, com direito a uma farta mesa de doces em seguida. As moças que estavam na fila do jantar só não contavam que o buquê fosse ser jogado justo naquele instante. Algumas tentaram sair discretamente da fila em direção ao bolinho de gente que se aglutinava atrás da noiva, enquanto outras abandonaram o prato de comida quentinho sobre a mesa para não perder o ritual. Se a tradição estiver certa, a próxima a se casar será aquela garota alta, que pulou mais alto que as outras e abriu os braços num ângulo digno de goleiro de seleção. A festa acabou e o mês das noivas também. Mas quem sabe essa história não termina como os contos de fadas, em que os pombinhos vivem felizes para sempre? Afinal, só dá para desejar felicidade a um casal fofo que coloca os seguintes dizeres no convite de casamento: “Para ser feliz, não é preciso muito. Basta uma família, a pessoa amada e um amigo. E esse amigo é você”. Escrito por Marina às 16h06 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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