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Pedro e Dorival

Pedro é um senhor de uns 70 anos, magrinho, pequenino, com cara de avô (parecido, aliás, com meu vô Alfredo, só que mais baixo). Mora em São Caetano do Sul, trabalha em Pinheiros. Atravessa a cidade todos os dias. O horário de trabalho é puxado: são 12 horas de jornada diária, das 14h às 2h da madrugada. Levando e trazendo gente o dia todo. Se eu reclamo de ser frila, o que dirá seu Pedro: trabalha com o próprio carro, e ele que arque com gasolina, estacionamento, zona azul e eventuais multas. Em uma curva mais aberta, seu Pedro levou uma buzinada de um carrão importado, que também quase levou o espelho de seu modesto Palio.

Tocada pela cena, pensei na vida do meu pai, que também não é mais nenhum garoto, também é motorista, também trabalha nesses horários ingratos e também tem que arcar com um bocado de coisas.

Seu Dorival tem 56 anos. Ele me diz que daqui a alguns anos irei me lembrar de um senhor velho, gordo e de óculos, que me disse no dia 2 de junho de 2004: “você vai prosperar na vida, eu tenho instinto para essas coisas”. Ele foi com a minha cara: além de ter previsto o meu sucesso futuro (!), disse que eu tenho cara de gente boa e inteligente. No caminho para a entrevista, fico sabendo que ele é formado em Direito (sem nunca ter exercido a profissão), já foi carreteiro e gerente do Banco Safra – me garantiu que, caso eu fosse da área econômica, me arranjaria já um emprego com seus contatos no mercado. Também ofereceu um emprego numa empresa aérea, onde a esposa dele trabalha.

Seu Dorival já teve um infarto do miocárdio e ficou 90 dias em coma. Ele não lembra de nada desse sono de três meses. Depois da ressurreição, sua vida é só alegria, segundo ele mesmo. Ontem, por exemplo, não foi trabalhar – coisas que a vida de frila às vezes permite – para levar os netos para passear. Não se estressa com atrasos, nem com o trânsito. E ainda fez o dia dessa pobre operária aqui mais feliz.

Pedro e Dorival são os motoristas que me levaram daqui para ali, ontem e hoje. Poderiam ser Pedro e Bino.



Escrito por Marina às 13h21
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